Tenho uma Casa. E agora?

O marido vai para o trabalho. Eu fico em casa. Em uma casa alugada, com móveis alugados. Parece que estou morando em um Airbnb. Me pergunto. E agora, faço o que?

Me dei conta que na teoria sou uma administradora de empresas, executiva de Projetos de Finanças na indústria do Petróleo, em um período sabático, mas na prática… Sou dona de casa.

Me dei conta que há uma diferença enorme entre ser administradora de empresas e dona de casa: para trabalhar em uma multinacional eu estudei 4 anos em uma faculdade. Ao entrar na empresa, fiz cursos. Ao iniciar uma atividade alguém sentou ao meu lado e me ensinou como fazê-la. Aos poucos fui ganhando confiança no meu trabalho, ficando confortável e fui tendo liberdade de mudar uma coisainha aqui outra ali, de criar funções, atividades, dar opiniões, estabelecer sistemas, alterar processos.

Mas para ser dona de casa eu não tive preparo nenhum. Vindo de uma familia de classse média brasileira, com uma mãe que trabalhava fora o dia inteiro, fui criada com babá e empregada boa parte da minha vida. Nunca participei das atividades domésticas e nem tenho referências sobre como cuidar bem de uma casa.

E de repente sou dona de casa de uma casa que não é minha, que eu não morri de amores por ela, com móveis que não são meus e ainda por cima longe “de casa”. Não sei onde nem quais produtos de limpeza eu devo comprar. Não sei que ingredientes, nem receitas eu devo fazer. Sendo casada com um gringo, aquela máxima de arroz com feijão todo dia não cola. Tem que ter criatividade na cozinha, aprender que alecrim é Rosemary e que canela se chama cinnamon.

Essa é uma realidade que muita gente que vai morar fora não se dá conta: que vai ter que alterar a rotina que tinha no Brasil para incluir no dia-a-dia as atividades domésticas. Eu sabia que ia ter que cuidar da casa em algum momento, mas eu não me preparei para isso. Aliás, eu nem sei como se prepara para isso. O jeito foi pesquisar non youtube: via vídeos de como limpar privada, banheiro, geladeira, de como passar roupa, procurava receitas no site da BBC de Londres…

Lembro da primeira vez que saí para comprar produtros de limpeza. Aqui nos USA, apesar de eu entender tudo o que está escrito, é difícil escolher um produto de limpeza porque são tantas opções que você não sabe nem por onte começar. Acho que eu fiquei umas duas horas no mercado fazendo uma investigação do que era cada produto. Só não me senti pior porque chegaram duas chinesas para comprar produtos também e elas choravam de rir entre elas. Percebi que elas nem sabiam inglês e não tinham a menor ideia do que estavam fazendo ali. Quando elas se deram conta que eu estava na mesma vibe que elas, elas me olharam e começaram a rir também. Nao falo chinês, mas dei aquele sorrisinho maroto e aquela piscadinha de quem diz: “tamo junto!”

Essa transição de ter empregada, faxineira, tão comum no Brasil, para não ter ajuda em casa, que é uma realidade na maioria dos países mais desenvolvidos pode ser um choque para quem não está acostumado a dedicar tempo, esforço físico e mental e energia para cuidar da sua própria casa, das suas próprias roupas, da sua própria comida, dos seus próprios filhos. Esse processo não foi fácil para mim, mas hoje, depois de 4 anos aqui, acho libertador. Não consigo imaginar como eu passei minha vida toda deixando cuidados essenciais nas mãos de terceiros.

E minha dica: isso tem que ser conversado antes de chegar no novo país. Eu acho válido começar a pensar em estabelecimento de rotinas e divisão de tarefas domésticas, independentemente de o casal estar em dual carrer ou não. Mesmo que um dos dois não esteja trabalhando é humanamente impossível uma só pessoa cuidar de crianças, casa, comida, roupas e ainda ter tempo pra si própria, pra curtir a nova vida fora do país e pra manter a sanidade mental em dia.

No início não foi nada fácil pra mim, mas aos poucos consegui estabelecer rotinas, dividir algumas tarefas e estabelecer algum suporte – hoje eu tenho uma empresa que vem em casa e pega as roupas de trabalho do meu marido e as entrega limpa e passada, tenho algumas subscriptions que entregam em casa os produtos de limpeza que preciso, assino um serviço que duas vezes por semana me entrega uma caixa com mantimentos e as receitas para preparar nosso jantar, tenho uma faxineira para fazer uma limpeza mais pesada a cada 15 dias e contei com a ajuda de uma personal organizer para criar sistemas de organização que facilitam a minha vida. Além disso, tenho alguns eletrodomèsticos que facilitam demais a rotina doméstica , como iRobot, que aspira a casa sozinho! Mais tarde vou fazer posts contando essas maravilhas que tem aqui para facilitar nossas vidas.

Hoje as tarefas domésticas não são mais um peso para mim, pelo contrário, me dá prazer quando eu vejo o meu filho colocando roupas na máquina de lavar, varrendo o chão ou guardando os seus próprios brinquedos, Ele, aos 2 anos de idade já tem referências de como cuidar de casa e de suas coisas porque ele vê os pais dele fazendo. Criar essa referência para mim não tem preço! Eu acho que esse é o primeiro passo para uma vida independente!

O dia que eu comprei lençóis novos e almofadas decorativas pra colocar na minha cama temporária, em uma tentativa de transformar aquela propriedade em nosso lar.

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