Uma conversa de pai pra Filha

Minha maior preocupação era a realocação profissional. Tendo um diploma de Administração de Empresas, um inglês avançado e trabalhado em multinacional por 12 anos, conhcendo bastante gente na indústria de petróleo, sabia que não seria difícil conseguir uma posição nos USA. Mas eu teria que batalhar por isso muito mais que batalharia por uma realocação no meu país. Sabia que ue teria que fazer um network agressivo e aprender a pedir ajuda, o que era meu fraco.

Eu fiquei sabendo que um dos GF (Gerentes de Finanças) estava no Rio. Este GF estava há muito tempo como expatriado, tendo vivido em países diferentes por muitos anos. Ele sabia o que eu estava por enfrentar. No momento ele estava alocado em Houston, mas de qualquer maneira, achei que valeria a pena (para mim) ter uma conversa com ele. E lá fui lá mendigar um pouco do precioso tempo dele.

Vou falar que eu esperava que ele me desse uns 5 minutos e falasse para procurá-lo quando eu chegasse nos US. Mas o que ele me deu foi muito mais que isso. Ele me abraçou como um pai e teve uma conversa comigo que eu nunca mais esqueço e meu deu dicas valiosas para qualquer parceiro de um expatriado.

A primeira coisa que ele me perguntou foi:

“Você sabe como é o processo de expatriação?”

E eu fiquei muda. Não, eu ainda não tinha me dado conta que não sabia. E ele começou a me explicar. A primeira coisa que ele me falou que foi um choque de realidade foi:

“Quem está sendo expatriado é seu parceiro, não você. Você, neste processo, está apenas acompanhando ele”. 

E continuou:

“E isso significa que assim que você chegar lá o seu parceiro vai começar a trabalhar no primeiro dia e enquanto isso o processo de mudança vai cair todo nas suas mãos“,

e começou a me dar mais detalhes:

“Você vai ter que tirar seus documentos  – o SSN, equivalente ao CPF – depois vai ter que aplicar para um visto de trabalho, o que vai levar uns 4 meses para sair.

Enquanto isso você vai tirar carteira de motorista, vai ter que procurar casa para alugar, comprar carro e cuidar da burocracia de comprar carro (emplacar, ir ao Detran), tudo isso em um lugar que você não conhece as regras, as leis, os bairros.

Você não sabe quanto tempo a sua mudança vai levar pra chegar, normalmente leva-se  entre 2 a 6 meses para entregarem um container vindo do Brasil, e quando sua mudança chegar vai ser você que vai desempacotar quase tudo sozinha porque não se tem nem amigos e nem parentes por perto e o seu parceiro vai estar trabalhando duro (sim porque a responsabilidade de um expatriado é muito maior do que a de um funcionário local, ele tem que de alguma maneira agregar valor à empresa para justificar todo o investimento que a empresa faz nele).

Depois desse processo todo é que a sua vida começa no novo país. Essa é a hora de começar a procurar emprego, ou fazer um curso, relaxar, fazer novas amizades, se acomodar no novo lar. Por outro lado, este também é o momento mais pesado para a maioria dos parceiros, porque a sensação que se dá pelas coisas que eu vi e vivi é que existe uma euforia por se chegar em um lugar novo, um foco em todo este processo de mudança, mas uma vez que você se assenta, bate uma monotonia, uma depressão. É nesse momento que bate a saudade da familia, dos amigos, do lar. Esta hora é muito perigosa”.

Ele ainda me deu mais uma dica: “Você pode até fazer um Network de leve, mas só procura emprego quando você estiver com o seu visto de trabalho em mãos, porque se você procura antes, uma oportunidade aparece e você não está pronta para agarrá-la, você vai ter queimado um cartucho à toa. E num momento como este não vale a pena queimar oportunidades.”

E terminou falando: “E pensa mesmo se você quer trabalhar ou se não vale a pena fazer um MBA, um outro curso… Um mundo de oportunidades vai se abrir para você.”

Eu saí do nosso bate-papo muito agradecida e até comovida pelo carinho que ele teve comigo, pela paciência de ir em todos estes detalhes, de ter ido muito além de ter ficado na superficialidade de falar apenas de oportunidades de trabalho.

Cheguei em casa e contei sobre o bate-papo que eu tive com o GF para o Mark. Estávamos sentados na varanda, olhando o pôr-do-sol e ele me falou: “Uma mudança internacional é uma excelente oportunidade para se reinventar”. 

Fiquei olhando o pôr-do-sol pensando em tudo aquilo. Eu não tinha a menor ideia do que estava por vir…

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Um dos melhores momentos do dia: chegar do trabalho e ver o por do sol da varanda, enquanto tomavamos um chá e conversávamos sobre o nosso dia

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